Mostrar mensagens com a etiqueta Poemário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poemário. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 19 de abril de 2012

«tocas as flores murchas que alguém te ofereceu»


ACORDAR TARDE

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva — e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos — e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais — nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

Al Berto [1948-1997]
Horto de Incêndio

terça-feira, 17 de abril de 2012

«Será verão ainda nessa margem do sono?»


POSTAL PARA MACHICO

Será verão ainda nessa margem do sono?
quem preferiu a distância à morte da flor?
existe esse do outro lado de ti?

a mentira da morte esquece
mãos que nos tocaram


Mário Rui de Oliveira (n. 17 de Abril de 1973), Bairro Judaico

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Aracne




É muito bonito o meu amigo de agora;
tem o mais belo pêlo da floresta,
e olhos onde brilha, em noite escura,
o faiscar do gelo nas alturas.
Demora-se a falar ao telefone
com a namorada, no vagar dos dias;
diz-lhe tudo o que faz, e pensa, e sente,
e ouve também, com ar inteligente,
as divertidas vidas que ela conta.
E há tantos episódios, desde o baile
dos mosquitos, no verão passado,
à recente soirée de sanguessugas,
que se distrai, e lento se espreguiça
ao sol, que lhe acentua as rugas.
Então eu subo pelo pêlo, e fico
a admirar tão sedosas harmonias;
no sussurro sem fios, que mal entendo,
colho o meu mel pequeno, e sou feliz.

António Franco Alexandre, Aracne.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

do mundo que malmolha ou desolha não me defendo


do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento


Herberto Helder, Ofício Cantante.