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| Feira do Livro de Lisboa 2009. Foto de Luís Guerra |
No dia 14 de Janeiro de 1950, faz hoje 63 anos, nasceu António Sérgio, «a voz profunda».
«As
visitas do Zé Pedro e principalmente do Kalu ao "Som da Frente" na
Rádio Comercial nunca constituíram surpresa para mim, eram constantes
depois da publicação do
79-82, e na altura mais dura de roer quando
perderam o guitarrista ou ficaram sem editora. Foi nessa altura que
percebi claramente que os
Xutos, mais do que banda de rock, são
uma autêntica unidade de combate: quando não tinham guitarrista e
enquanto não aparecia outro, toca a fazerem-se à estrada em trio (apesar
do Zé Pedro não ser um solista)... se não tinham editora, então vieram
falar comigo para conhecer o
modus operandi da indústria fonográfica
para (imagine-se na altura) tentarem uma edição de autor.
Tudo acabou por se resolver, veio
O Cerco
com a Dansa do Som, depois o contrato com a Polygram, o trabalho com um
produtor que também era músico (o Carlos Maria Trindade), o
Circo de Feras, o êxito do
Contentores, as tournées esgotadas e o culminar com o estrondoso (e fumarento) concerto do Pavilhão do Belenenses.
Por
isso, quando após esta sucessão feliz de eventos voltei a ter uma
visita do Kalu, aí sim fiquei surpreendido. E o que trazia ele na manga?
"Tu
é que eras o gajo indicado para falar com a Ana Cristina e convencê-la a
escrever o nosso livro. Afinal a malta já conseguiu quase tudo mas
falta-nos ter um livro." O Kalu era um tipo atento, gostava muito de
visitar Londres e sabia da quantidade de livros que existiam a contar as
histórias de músicos, bandas, enfim a retratar dum certo modo mais
arrumado as várias cenas musicais então existentes.
"Sabes, é uma
fezada que eu tenho, oiço muitos textos da Cristina aqui no 'Som da
Frente' e ela tem jeito." Também achava isso mesmo e logo que regressei a
casa, não pude falar do recado do Kalu pois ela dormia mas escrevi um
post it amarelinho com o pedido que me alegrara muito.
A
Ana Cristina tinha qualidade, engenho e sensibilidade em tudo o que
tinha feito para rádio, abordava com facilidade tópicos de natureza
muito diferente. Acima de tudo tinha uma capacidade invulgar para
transformar mesmo os temas mais "bicudos" em peças radiofónicas que
captavam a "orelha" do ouvinte, abordando com facilidade tópicos de
natureza distinta, enquadrando som e textos numa linguagem radiofónica
própria e inovadora à época em Portugal no que se referia a música
alternativa. Agora porém, surgia um novo desafio pois tratava-se de um
livro.
Que eu reparasse não houve hesitações. A Ana é uma unidade à
Xutos, pronta para a acção, para o combate aos atavismos, às incertezas, às dificuldades.
Quando
escrevi o tal recado que coloquei na cabeceira da cama da Ana naquela
noite, adormeci com uma dúvida na cabeça: como iria ela retratar e até
recriar a cena musical de um país como o nosso?
O método utilizado consistiu em entrevistar os
Xutos
um a um e, depois em grupo de 2, 3, ou mais. Orientou as conversas, o
q.b. para manter o foco e não cortar "a onda de memórias", e captou-as
no gravador de cassetes Sony adquirido para o efeito. Daí resultaram
intermináveis serões de captação em cassete, ao longo de muitos meses,
em que o Tim, o Zé Pedro, o Kalu, o Gui e o menos palavroso Cabeleira
contaram, entre gargalhadas e nostalgia mas sempre genuínos, as
histórias mais pitorescas, mais ou menos picantes, com que se depararam
ao longo de muitos anos de estrada. Sessões de trabalho mas acima de
tudo de alegria e boa disposição.
Conhecendo a prática jornalística
inglesa empregue em livros sobre grupos de rock e pop, invariavelmente
figuras públicas de contornos comportamentais polémicos, como se iria
contar uma (ou várias) histórias de músicos nossos amigos, com famílias
próximas, até já com filhos, sem que o resultado fosse um imenso bocejo,
caso se extirpassem as menções aos "berlaites", às "bubas", às
noitadas, etc.
Essas dúvidas dissiparam-se face à puerilidade, à autoconfiança, afinal o carácter genuíno com que os
Xutos
debitaram para o gravador todo aquele quotidiano vivido no frenesim da
estrada, afinal a sua razão de ser. Recentemente nas declarações de
várias pessoas no 30º aniversário o Luis Montez afirmava num jornal
diário que tinha conhecido nos
Xutos "... a melhor malta do mundo". Percebemos o que ele queria dizer!
Mantendo
a estratégia do trabalho de campo, a Ana resolveu em seguida
entrevistar toda a gente (mas toda mesmo) que tivesse tido uma pontinha
de contacto com eles... surgiram então o Pedro Ayres de Magalhães, o
Ricardo Camacho, a Lola, o Paulo Junqueiro, o Pedro Lopes, o Vítor
Silva, o José Wallenstein, enfim praticamente "todo o mundo" que tinha
algo para contar, algo para opinar, qualquer coisa para celebrar e para
fazer brilhar os olhos. Voltámos a perceber porquê!
Depois da
gigantesca recolha e da morosa transcrição das conversas estarem
concluídas, faltava arrumar aquilo tudo (e dou graças a Deus por não ter
sido eu a fazê-lo). A Ana tinha tudo planeado, as peças do puzzle, por
mais que variadas e de interligação difícil, encaixavam resultando num
livro ágil, rápido e aliciante de se ler, digno duma banda de vivência
nua e crua. Digno dos
Xutos e Pontapés.
Porque se tratava
não duma banda qualquer mas sim da maior banda de rock portuguesa, um
punhado de músicos que munidos de inegável talento, com uma bagagem de
canções notáveis e sempre capazes de comunicar com as sucessivas
gerações de portugueses num simples piscar de olhos cúmplice, que
pegaram a carreira de caras, cheios duma energia transbordante mas
também com uma noção responsável de persistência, vinda de quem sabe que
não há nem sucessos nem vitórias fáceis!
A crítica musical recebeu o livro
Conta-me Histórias
com apreço. Manuel Falcão considerou: "... um objecto de culto, a
inauguração duma nova era do livro musical no nosso país". Pedro Rolo
Duarte classificou-o como "um objecto Rock".
Para o saudoso Manuel
Hermínio Monteiro, que tão sagazmente manteve a música em livro através
da colecção Rei Lagarto, era uma vitória para a menina dos seus olhos...
a Assírio & Alvim.
Para mim o maior motivo de orgulho é poder voltar às histórias dos Xutos neste Conta-me Histórias e ainda voltar a rir, voltar a ter gozo em relê-lo.That's the stuff dreams are made of!