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quarta-feira, 13 de março de 2013

«O Problema da Habitação», de Ruy Belo


O PROBLEMA DA HABITAÇÃO
Ruy Belo

Prefácio de Fernando Pinto do Amaral

Colecção: Obras de Ruy Belo / Tema, classificação: Poesia
Data de Edição: Março de 2013
Formato e acabamento: 14,5 x 20,5 cm, edição brochada / 72 páginas
ISBN: 978-972-37-1674-0
Preço: 11 €

Publicado em 1962, um ano após Aquele Grande Rio Eufrates, o livro agora reeditado pela Assírio & Alvim representa, a meu ver, um dos momentos mais coerentes e mais densos da obra de Ruy Belo […].  Fernando Pinto do Amaral

O Problema da Habitação foi o segundo livro publicado por Ruy Belo, um dos grandes poetas do século XX português. Nas palavras de Gastão Cruz, «Creio que nenhum poeta português interroga de forma tão aguda e permanente como Ruy Belo a estranheza do que nos acontece e do que nos rodeia […], as contradições da nossa fala e as nossas idas e vindas […], a nossa insegurança e a nossa efemeridade.»

Ruy Belo nasceu em 1933 em S. João da Ribeira. Licenciou-se em Direito e, mais tarde, em Filologia Românica, pela Universidade de Lisboa, obtendo mais tarde o doutoramento em Direito Canónico pela Universidade de S. Tomás de Aquino, em Roma. Entre outras actividades foi crítico literário, jornalista, leitor na Universidade de Madrid e tradutor para português de nomes como Blaise Cendrars, Saint-Exupéry, Lorca e Jorge Luís Borges, entre muitos outros. Considerado um dos mais importantes poetas portugueses da segunda metade do século XX, faleceu precocemente em 1978.

quarta-feira, 6 de março de 2013

«Serão Inquieto», de António Patrício


SERÃO INQUIETO
António Patrício

Nota Preambular de Armando Nascimento Rosa
Edição e Posfácio de David João Neves Antunes

Colecção: Obras de António Patrício / Tema, classificação: Contos
Data de Edição: Fevereiro de 2013
Formato e acabamento: 14,5 x 20,5 cm, edição brochada / 160 páginas
ISBN: 978-972-37-1669-6
Preço: 12 €

Génio, em arte, é o teclado imaterial das analogias que o sopro da emoção acorda sempre, e faz de cada instante eternidade; e põe o hálito de Deus nos muros nús; e desdobra sobre eles, como um fresco, um invisível fresco mais-que-vivo, o universo mergulhado em sonho.

Em 1910, António Patrício deu ao prelo a primeira edição do livro de contos Serão Inquieto. À série de contos «Diálogo com uma águia», «O precoce», «O homem das fontes», «Suze» e «O Veiga», seguem-se «Words», notas que António Patrício seleccionou e transcreveu de um caderno de notas e atribui em nota de rodapé a um tal C.F., seu «ex-condiscípulo», que se despedira do autor «para casar, como outros se despedem para morrer», e que «não ferem sensivelmente a moral pública», sendo possivelmente «os senhores dirão — curiosas». Em 1920, saía a segunda edição do livro, diferindo da primeira por apresentar uma Errata, que é extensível à edição de 1910, e mais umas notas que acrescentam as «Words». A edição que agora se apresenta resulta do confronto das duas edições anteriores e acrescenta-lhes uma terceira secção, inédita, constituída pelos «Aforismos».


António Patrício (Porto, 1878-Macau, 1930) estudou Medicina na Universidade do Porto. Nunca exerceu a profissão porque, com o advento da 1.ª República, ingressou na carreira diplomática. Poeta, dramaturgo e contista, é o mais extraordinário expoente da estética simbolista na dramaturgia de língua portuguesa. Publicou, em livro, peças de teatro como O Fim – História dramática em dois quadros (1909) e Pedro o Cru – Drama em quatro actos (1918), tendo deixado incompletos muitos outros escritos e projectos para teatro. Os seus poemas estão reunidos em dois volumes: Oceano (1905), o seu livro de estreia, e Poesias, uma edição póstuma (1942).

terça-feira, 5 de março de 2013

«Pequeno Tratado das Figuras», de Manuel Gusmão


PEQUENO TRATADO DAS FIGURAS
Manuel Gusmão

Colecção: Poesia Inédita Portuguesa / Tema, classificação: Poesia
Data de Edição: Fevereiro de 2013
Formato e acabamento: 14,5 x 20,5 cm, edição brochada / 112 páginas
ISBN: 978-972-37-1668-9
Preço: 12,90 €

Este é o mais recente livro de poesia de Manuel Gusmão, e o primeiro que publica na Assírio & Alvim, se exceptuarmos o volume de ensaios Tatuagem & Palimpsesto e outras colaborações esporádicas. É um livro surpreendente sobre a vida, as imagens, a arte e a sua prática e a confirmação de estarmos perante um dos grandes poetas portugueses do nosso tempo.

Manuel Gusmão nasceu em Évora, em Dezembro de 1945, e é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi deputado na Assembleia Constituinte e na 1.ª legislatura da Assembleia da República, eleito pelo PCP. Tem reconhecida obra no domínio do ensaio, designadamente sobre Fernando Pessoa, Carlos de Oliveira, Nuno Bragança, Maria Velho da Costa, Luiza Neto Jorge e Gastão Cruz. No campo da poesia estreou-se com o livro Dois Sóis, A Rosa — a Arquitectura do Mundo.
É um dos grandes poetas portugueses do nosso tempo e a sua obra tem sido distinguida com diversos prémios, entre eles o Prémio D. Diniz, o Prémio Vergílio Ferreira e o Prémio DST de Literatura.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Obras de Eugénio de Andrade



CORAÇÃO DO DIA · MAR DE SETEMBRO
Eugénio de Andrade 

Prefácio de Fernando J.B. Martinho


Colecção: Obras de Eugénio de Andrade / Tema, classificação: Poesia
Data de Edição: Fevereiro de 2013
Formato e acabamento: 14,5 x 20,5 cm, edição brochada / 80 páginas
ISBN: 978-972-37-1666-5
Preço: 11 €

«A limpidez, a luminosa simplicidade que nos oferta, em ambos estes conjuntos, há que aceitá-la como uma graça de que só a grande poesia é capaz.»

Fernando J.B. Martinho





OSTINATO RIGORE 
Eugénio de Andrade
 
Prefácio de Eduardo Lourenço


Colecção: Obras de Eugénio de Andrade / Tema, classificação: Poesia
Data de Edição: Fevereiro de 2013

Formato e acabamento: 14,5 x 20,5 cm, edição brochada / 56 páginas
ISBN: 978-972-37-1667-2
Preço: 10 €

«O paganismo foi um excesso dos deuses e em Eugénio de Andrade nem há deuses, nem excessos. São as coisas mesmas que modulam a música com que as fala para as deixar intactas no seu original e inviolável silêncio de coisas.»

Eduardo Lourenço

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

«A Paixão», de Almeida Faria


A PAIXÃO
Almeida Faria


Colecção: A Phala / Tema, classificação: Romance
Data de Edição: janeiro de 2013
Formato e acabamento: 14,5 x 20,5 cm, edição brochada com badanas / 224 páginas

ISBN: 978-972-37-1665-8
Preço: 13,90 €

«Almeida Faria escreveu um poema épico, deveras, porque
todas as suas descrições, todas as suas enumerações, todas as suas variações imaginárias e baseadas na hipótese da situação e subjetividade humana […] tecem um diálogo entre os objetos como objetos e os objetos como sinais; porque o cruzamento entre as diversas vivências cíclicas do tempo concreto, ou vivido, reacorda no leitor a ânsia interrogativa sobre o de agora e o de sempre sobre o que se repete e o que é realmente novo […].» ÓSCAR LOPES


«A Paixão será porventura a mais espessa cortina de linguagem que a literatura portuguesa terá produzido na segunda metade do século XX. Podemos dizer, quase nostalgicamente, que já foi grande a escrita em português.» LUÍS QUINTAIS

«Um livro de pura genialidade da juventude.» EDUARDO LOURENÇO

«Ao ler A Paixão de Almeida Faria no início dos anos 70, entrei em imediata comunhão com essa obra-prima, ao ponto de colar ao Lavoura Arcaica, sem qualquer pudor, certas imagens e metáforas daquele poema em prosa.» RADUAN NASSAR 

«Todo o génio de Almeida Faria está na expressão rigorosa da fértil união entre o sagrado e o profano.» La Quinzaine Littéraire, FRANÇA  

«o seu segundo romance, A Paixão, possui as mesmas qualidades literalmente espantosas de Rumor Branco, sendo ao mesmo tempo mais despojado e mais apaixonado; desta vez a severidade é implacável, e a composição aposta numa disciplina exemplar.» Books Abroad, EUA

«Na minha geração, lembro-me de sair A Paixão de Almeida Faria e eu com 19 anos a pensar: nunca chegarei aos calcanhares deste homem.» ANTÓNIO LOBO ANTUNES

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

«O Estado do Bosque», de José Tolentino Mendonça


O ESTADO DO BOSQUE

José Tolentino Mendonça


Colecção: A Phala / Tema, classificação: Teatro
Data de Edição: Janeiro 2013
Formato e acabamento: 14,5 x 20,5 cm, edição brochada / 72 páginas

ISBN: 978-972-37-1663-4
Preço: 10 €


Um dia os homens deixarão os aviões, os transatlânticos,
os comboios de alta velocidade, os automóveis para
regressar aos caminhos do bosque.

[excerto do livro]

Após Perdoar Helena José Tolentino Mendonça regressa ao teatro com uma nova peça onde interagem cinco personagens: 3 homens e 2 mulheres. John Wolf, o guia da floresta; 2 caminhantes: Peter Weil (meia idade) e Jacob (mais novo). E duas mulheres: a jovem Viviane Mars e o Destino. Esta peça estará em cena, de 7 a 24 de fevereiro de 2013, no Teatro do Bairro Alto, com encenação de Luís Miguel Cintra.

Peter: Qual é o sentido do trilho?
John Wolf: Não sei. Cada trilho conduz a mais do que um sentido.

Poeta, sacerdote e professor, José Tolentino Mendonça nasceu em 1965, na ilha da Madeira. Doutorou-se em Teologia Bíblica, em Roma, e vive atualmente em Lisboa. Entre outras responsabilidades é Vice-Reitor da Universidade Católica Portuguesa, dirige o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e a revista Didaskalia. Tem publicado diversos livros de poesia, ensaio e teatro na Assírio & Alvim, e colaborado em muitos outros como tradutor e/ou organizador.
Para José Tolentino Mendonça, «A poesia é a arte de resistir ao seu tempo». A sua obra tem sido traduzida no estrangeiro e galardoada com diversos prémios, entre eles o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia e o Prémio Pen Clube de Ensaio.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

sábado, 23 de fevereiro de 2013

«Saudades do Zeca», por Viriato Teles

                                                                                                 Zeca e Viriato, 1980

A minha memória mais antiga de Zeca Afonso vem do início dos anos 60 do século passado quando, ainda miúdo, ouvia na rádio o «Menino d’Oiro». A televisão era um luxo a que as gentes da classe média desse tempo não podiam dar-se – e, fosse como fosse, ele não frequentava os saraus de variedades que o electrodoméstico transmitia por esses tempos. 


Foi, pois, pela rádio que tive o meu primeiro contacto com esta música, a sua música. Baladas ao jeito de Coimbra, ainda, embora já afastadas do tradicionalismo puro e duro que ainda ditava as regras entre a estudantada. Mas isso, claro, eram coisas que, nessa altura, eu desconhecia porque não passava duma criança a quem a minha mãe trauteava os versos ouvidos nas ondas hertezianas: «O meu menino é d’oiro / é d’oiro fino / não façam caso que é pequenino…» 


Pelos meus pais vim a saber mais tarde que o intérprete dessa melodia suave que embalava tantos dos meus sonos se chamava José Afonso. Melhor: Dr. José Afonso, por força da estratégia comercial da editora. O título académico marcava a origem coimbrã do cantor e distinguia-o dos cançonetistas vulgares. A verdade é que, aos olhos do povo, o dê-érre marcava a diferença, muito embora o próprio não apreciasse tais reverências. E também não foi por isso que ele passou a ser mais ouvido lá em casa. Foi mesmo pela música e pelo empenhamento político, duas coisas a que a tribo familiar atribuía grande importância. 


Nessa altura também ainda não sabia que eu e o Zeca tínhamos várias outras coisas em comum, a começar pela proximidade geográfica: ele nasceu em Aveiro, a escassos cinco quilómetros da terra onde vim ao mundo. E foi na cidade da ria que nos cruzámos fisicamente pela primeira vez, num encontro quase sem história (e, para ele, decerto sem memória), pouco tempo passado sobre o 25 de Abril de 74, numa altura em que Zeca ali foi para um dos muitos milhares de convívios cantigueiros desse tempo em que tudo nos parecia possível. 


Antes disso, porém, registo um pequeníssimo episódio que – fosse eu dado a essas crenças – quase poderia ser visto como um sinal premonitório dos encontros futuros. As minhas primeiras veleidades jornalísticas, chamemos-lhe assim, aconteceram com umas prosas ingénuas que vieram a lume nas páginas do suplemento juvenil do República, corria então o ano de 1973. Ora acontece que um desses textos – não sei já se o primeiro de todos, mas pelo menos o mais antigo de que guardo registo – surgiu publicado, para orgulho meu e dos que me estavam próximos, lado a lado com uma foto de Zeca Afonso. Por nenhuma razão especial, apenas porque calhou ou porque o paginador quis que assim fosse. 


Imagina-se, portanto, o meu orgulho desses dias: não apenas tinha uma prosa publicada em letra de forma, como ainda por cima vinha lado a lado com o retrato de tão ilustre cidadão. Convém esclarecer, para quem não saiba ou já não se lembre, que nesse tempo o acesso aos jornais era, malgré tout, bastante mais difícil do que nos dias de hoje, quanto mais não fosse porque havia uma instituição chamada Censura, que se mostrava particularmente atenta às fogosidades juvenis. Mas isso são outras histórias. 


Voltando ao Zeca: continuei a seguir-lhe o rasto e quis o destino que nos reencontrássemos, agora de modo mais consistente, um par de anos depois desse primeiro encontro fortuito em Aveiro, algumas centenas de quilómetros mais a sul. Eu dava os primeiros passos no jornalismo profissional e mantinha uma colaboração regular com uma revistinha que fez história a partir do Porto – o Mundo da Canção, ou MC, para os mais íntimos [1] – e coube-me a agradibilíssima tarefa de o entrevistar. 


Lembro-me bem da minha chegada a Azeitão, num sábado de manhã, e da forma como o Zeca me recebeu: de pijama e com a barba por fazer, naquele seu jeito tão sem-cerimónia que chegava a ser desconcertante. Lembro-me de como ele procurava esquivar-se a falar de música porque havia outras coisas sobre as quais lhe dava muito mais gozo discorrer: as conversas na serra da Arrábida com o Ti Zé Pastor, a gente simples do país real no meio de quem se sentia sempre em casa, o Zé da Merda «que alugava bolas à malta» no Campo de Santa Clara, a vida vivida com intensidade e paixão. Lembro-me, também, do grande sentido de humor, uma das suas características mais vincadas e que ele nunca abandonou – nem mesmo quando a doença começou a (do)minar o seu dia-a-dia. 


Recordo, por exemplo, a maneira como sorria matreiramente ao lembrar aventuras juvenis coimbrãs e o surripianço de livros, em que foi iniciado por um grande mestre dessa arte marginal, o também poeta, e amigo comum, Luís Pignatelli: «Tinha a mania de ir à biblioteca dos padres, onde, além de castiçais e relicários, havia livros.» 


Esta e outras histórias ficaram registadas nessa primeira entrevista, de que saiu também uma foto (de Fernando Negreira) que viria a ser utilizada mais tarde no disco «Fados de Coimbra e Outras Canções», o último gravado para a editora de Arnaldo Trindade: o Zeca de capote alentejano ao ombro e saco de viagem na mão, a caminho da camioneta que havia de levá-lo a Lisboa, de onde partiria até às Caldas da Rainha para uma das suas famosas sessões termais que frequentava para tentar amenizar a sinusite e a hipocondria. 


Depois disso (e «isso» foram dois ou três fins-de-semana de vai-vem entre Lisboa e Azeitão, tempo necessário para que eu considerasse a entrevista como pronta a sair) passámos a encontrar-nos com mais regularidade, quase sempre sem marcação nem «agenda» prévia, ao sabor dos acasos e das lutas. Tive, entretanto, o ensejo de o entrevistar mais uma série de vezes, para o Se7e e para O Jornal. De um par dessas «conversas profissionais» nasceu a primeira versão destas Voltas de um Andarilho, publicada pela primeira vez em 1983.


De todos os momentos e todas as histórias que partilhámos, há obviamente alguns mais inesquecíveis do que outros. Como por exemplo o dia em que fui com o Fernando Assis Pacheco visitá-lo a Azeitão, em vésperas do concerto do Coliseu, e quase nos perdemos no meio de um nevoeiro sebastianico. Ou a tarde em que me telefonou, irado, porque a campanha do candidato presidencial Mário Soares, em pleno confronto de segunda volta com Freitas do Amaral, se tinha apoderado do seu «Natal dos Simples» sem dizer água-vai. Ou o modo como ficou sensibilizado quando lhe contei do cançonetista famoso que me tinha procurado para dizer que era «um filho-da-puta igual aos outros», mas que sabia da doença do Zeca e estava disponível para contribuir mensalmente com uma prestação pecuniária regular e até nem se importaria de ajudar a organizar um espectáculo de solidariedade, mas que não queria nenhuma publicidade em volta desse assunto. 

De todas estas minhas memórias do Zeca se fez este livro. E, apesar de notoriamente curtas em comparação com as de muitos outros companheiros, sei que ainda fica muito por contar. Mas não posso, nem quero, deixar de recordar o quase desconhecido movimento em que nos envolvemos por ocasião do surto grevista polaco, em inícios dos anos 80, que foi o primeiro prenúncio do derrube do «socialismo real». Um episódio pouco importante e que na altura foi ignorado por quase toda a gente, mas que não deixa de ser motivo de orgulho para todos os envolvidos. 


Em plena «crise de Gdansk», com o sindicato Solidariedade de Lech Walesa a tornar-se o pólo de todas as atenções, houve em Portugal uma escassa meia centena de cidadãos lúcidos, de vários quadrantes políticos e sociais, para quem a razão não estava nem do lado dos apoiantes nem dos detractores da alegada «central sindical» polaca. O Zeca era um deles, e foi quem me desafiou para reunir (com o Fausto, o Carlos Loures, o Orlando Costa e mais uns quantos malandrins) em casa do Carlos Leça da Veiga para a elaboração de um documento a que chamámos «Que a lição da Polónia não seja em vão»[2]. No texto, de modo involuntariamente premonitório, alertávamos para as consequências de um movimento popular que a esquerda desse tempo teimava em menorizar e de que a Igreja Católica e toda a direita europeia não hesitavam em apoderar-se – com resultados que poderiam ser dramáticos, como alguns anos depois veio a verificar-se, ultrapassando aliás as nossas expectativas. 


O «comunicado» que então elaborámos, resultado de várias horas de discussão desinteressada, seria olimpicamente ignorado tanto pelos órgãos de comunicação dos vários quadrantes como pelas organizações políticas da época, incluindo aquelas onde pontificavam muitos dos nossos amigos. Nenhum nos disse, mas suponho que todos (ou quase) nos devem ter tomado por «um grupo de maluquinhos» armados em analistas de ocasião. Que eu saiba, o papelinho apenas foi divulgado nos espectáculos d’A Barraca, e a coisa não teve mais repercussões públicas. 


Meia dúzia de anos depois, a queda do Muro de Berlim e todo o estardalhaço que se seguiu deram-nos razão. Mas, nessa altura, já era tarde de mais. E o Zeca já não estava cá para ver…


Viriato Teles, As Voltas de Um Andarilho, Assírio & Alvim, 2009.

[1] MC – Mundo da Canção, revista fundada em 1969 por Avelino Tavares foi, sobretudo durante os últimos anos do fascismo, um baluarte da então chamada “nova música portuguesa”, chegando a ter, em 1973, uma edição integralmente apreendida pela Pide. Cessou a sua publicação em meados dos anos 80, mas continua a existir como agência de espectáculos e distribuidora de discos de músicas alternativas.

[2] Eram os seguintes os 50 subscritores do documento: Alberto Galvão Teles (médico e prof. universitário), Américo Carvalhinhos (médico), Ana Leça da Veiga (professora), António Leça (professor), António Duarte (jornalista), Augusta Clara de Matos (bióloga), Carlos Leça da Veiga (médico), Carlos Loures (escritor), Carlos Paulo (actor), Carlos Rebelo (comerciante), Carlos Serra e Moura (industrial), Clara Queirós (prof. universitária), Ermelinda Mendes (médica), Estela Monteiro (médica e prof. universitária), Ester Silva Mota (funcionária pública), Fausto Bordalo Dias (músico), Fernanda Fontinho (bancária), Filipe Rosas (médico), Germano do Carmo (médico), Helena Loures (emp. escritório), Irene Namorado (médica), Isabel Fernandes (func. pública), Jaime Camecelha (bancário), João Machado (sociólogo), João Manuel Jorge Loureiro (actor), João Maria (func. público), João Maria Pinto (actor), Jorge Alves (economista), Jorge Viotti de Carvalho (médico), José Afonso (músico), José Francisco Ribeiro (jornalista), José Wellington de Aragão (sociólogo), Lurdes Fialho (médica), Manuel Simões (prof. universitário), Manuela Lima (médica), Maria Alice Garcia (func. pública), Maria José P. Olímpio (professora), Maria Luísa Aragão (psicóloga), Maria do Rosário Amaral (médica), Mário Clemente (industrial), Miguel Neves de Almeida (actor), Orlando Costa (actor), Paulo Ferreira (actor), Paulo Pereira (estudante), Pedro Ramalhete (estudante), Rogério Camecelha (bancário), Rui de Oliveira (médico), Santos Manuel (actor), Teresa Salgueiro (empregada de seguros) e Viriato Teles (jornalista).

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

«Oração mágica finlandesa para estancar o sangue das feridas»



Pára, sangue, de correr, 
de ressaltar aos borbotões,
de me inundar como torrente, 
de me brotar sobre o flanco.
Como contra uma parede,
imóvel como uma sebe,
lírio marinho direito
como espadana na espuma,
como pedra no talude
e o recife na corrente.
Sangue, sangue, se o desejo
te faz correr com tal força, 
circula dentro da carne,
abraça-te aos ossos vivos.
Belo, belo que é correr
na obscura pele compacta,
sussurrando nas artérias,
murmurando contra os ossos.
Pára, sangue, de correr
sobre a fria terra morta.
Não corras, leite, no chão,
sangue inocente no vale,
beleza humana entre a erva,
oiro de heróis na colina.
Desce fundo ao coração,
bate surdo nos pulmões,
desce, desce fundamente
aos órgãos vivos do corpo.
Não és rio que se escoe,
nem calmo lago parado,
nem fonte que brote assim,
nem barca velha com rombos.

O Bebedor Nocturno
[ Poemas mudados para português por Herberto Helder ]

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Ana Cristina Ferrão


Hoje faz anos a Ana Cristina Ferrão, autora do livro Conta-me Histórias - Xutos e Pontapés
Parabéns!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

António Sérgio

Feira do Livro de Lisboa 2009. Foto de Luís Guerra

No dia 14 de Janeiro de 1950, faz hoje 63 anos, nasceu António Sérgio, «a voz profunda».

«As visitas do Zé Pedro e principalmente do Kalu ao "Som da Frente" na Rádio Comercial nunca constituíram surpresa para mim, eram constantes depois da publicação do 79-82, e na altura mais dura de roer quando perderam o guitarrista ou ficaram sem editora. Foi nessa altura que percebi claramente que os Xutos, mais do que banda de rock, são uma autêntica unidade de combate: quando não tinham guitarrista e enquanto não aparecia outro, toca a fazerem-se à estrada em trio (apesar do Zé Pedro não ser um solista)... se não tinham editora, então vieram falar comigo para conhecer o modus operandi da indústria fonográfica para (imagine-se na altura) tentarem uma edição de autor.
Tudo acabou por se resolver, veio O Cerco com a Dansa do Som, depois o contrato com a Polygram, o trabalho com um produtor que também era músico (o Carlos Maria Trindade), o Circo de Feras, o êxito do Contentores, as tournées esgotadas e o culminar com o estrondoso (e fumarento) concerto do Pavilhão do Belenenses.
Por isso, quando após esta sucessão feliz de eventos voltei a ter uma visita do Kalu, aí sim fiquei surpreendido. E o que trazia ele na manga?
"Tu é que eras o gajo indicado para falar com a Ana Cristina e convencê-la a escrever o nosso livro. Afinal a malta já conseguiu quase tudo mas falta-nos ter um livro." O Kalu era um tipo atento, gostava muito de visitar Londres e sabia da quantidade de livros que existiam a contar as histórias de músicos, bandas, enfim a retratar dum certo modo mais arrumado as várias cenas musicais então existentes.
"Sabes, é uma fezada que eu tenho, oiço muitos textos da Cristina aqui no 'Som da Frente' e ela tem jeito." Também achava isso mesmo e logo que regressei a casa, não pude falar do recado do Kalu pois ela dormia mas escrevi um post it amarelinho com o pedido que me alegrara muito.
A Ana Cristina tinha qualidade, engenho e sensibilidade em tudo o que tinha feito para rádio, abordava com facilidade tópicos de natureza muito diferente. Acima de tudo tinha uma capacidade invulgar para transformar mesmo os temas mais "bicudos" em peças radiofónicas que captavam a "orelha" do ouvinte, abordando com facilidade tópicos de natureza distinta, enquadrando som e textos numa linguagem radiofónica própria e inovadora à época em Portugal no que se referia a música alternativa. Agora porém, surgia um novo desafio pois tratava-se de um livro.
Que eu reparasse não houve hesitações. A Ana é uma unidade à Xutos, pronta para a acção, para o combate aos atavismos, às incertezas, às dificuldades.
Quando escrevi o tal recado que coloquei na cabeceira da cama da Ana naquela noite, adormeci com uma dúvida na cabeça: como iria ela retratar e até recriar a cena musical de um país como o nosso?
O método utilizado consistiu em entrevistar os Xutos um a um e, depois em grupo de 2, 3, ou mais. Orientou as conversas, o q.b. para manter o foco e não cortar "a onda de memórias", e captou-as no gravador de cassetes Sony adquirido para o efeito. Daí resultaram intermináveis serões de captação em cassete, ao longo de muitos meses, em que o Tim, o Zé Pedro, o Kalu, o Gui e o menos palavroso Cabeleira contaram, entre gargalhadas e nostalgia mas sempre genuínos, as histórias mais pitorescas, mais ou menos picantes, com que se depararam ao longo de muitos anos de estrada. Sessões de trabalho mas acima de tudo de alegria e boa disposição.
Conhecendo a prática jornalística inglesa empregue em livros sobre grupos de rock e pop, invariavelmente figuras públicas de contornos comportamentais polémicos, como se iria contar uma (ou várias) histórias de músicos nossos amigos, com famílias próximas, até já com filhos, sem que o resultado fosse um imenso bocejo, caso se extirpassem as menções aos "berlaites", às "bubas", às noitadas, etc.
Essas dúvidas dissiparam-se face à puerilidade, à autoconfiança, afinal o carácter genuíno com que os Xutos debitaram para o gravador todo aquele quotidiano vivido no frenesim da estrada, afinal a sua razão de ser. Recentemente nas declarações de várias pessoas no 30º aniversário o Luis Montez afirmava num jornal diário que tinha conhecido nos Xutos "... a melhor malta do mundo". Percebemos o que ele queria dizer!
Mantendo a estratégia do trabalho de campo, a Ana resolveu em seguida entrevistar toda a gente (mas toda mesmo) que tivesse tido uma pontinha de contacto com eles... surgiram então o Pedro Ayres de Magalhães, o Ricardo Camacho, a Lola, o Paulo Junqueiro, o Pedro Lopes, o Vítor Silva, o José Wallenstein, enfim praticamente "todo o mundo" que tinha algo para contar, algo para opinar, qualquer coisa para celebrar e para fazer brilhar os olhos. Voltámos a perceber porquê!
Depois da gigantesca recolha e da morosa transcrição das conversas estarem concluídas, faltava arrumar aquilo tudo (e dou graças a Deus por não ter sido eu a fazê-lo). A Ana tinha tudo planeado, as peças do puzzle, por mais que variadas e de interligação difícil, encaixavam resultando num livro ágil, rápido e aliciante de se ler, digno duma banda de vivência nua e crua. Digno dos Xutos e Pontapés.
Porque se tratava não duma banda qualquer mas sim da maior banda de rock portuguesa, um punhado de músicos que munidos de inegável talento, com uma bagagem de canções notáveis e sempre capazes de comunicar com as sucessivas gerações de portugueses num simples piscar de olhos cúmplice, que pegaram a carreira de caras, cheios duma energia transbordante mas também com uma noção responsável de persistência, vinda de quem sabe que não há nem sucessos nem vitórias fáceis!
A crítica musical recebeu o livro Conta-me Histórias com apreço. Manuel Falcão considerou: "... um objecto de culto, a inauguração duma nova era do livro musical no nosso país". Pedro Rolo Duarte classificou-o como "um objecto Rock".
Para o saudoso Manuel Hermínio Monteiro, que tão sagazmente manteve a música em livro através da colecção Rei Lagarto, era uma vitória para a menina dos seus olhos... a Assírio & Alvim.
Para mim o maior motivo de orgulho é poder voltar às histórias dos Xutos neste Conta-me Histórias e ainda voltar a rir, voltar a ter gozo em relê-lo.
That's the stuff dreams are made of!

ANTÓNIO SÉRGIO
Fevereiro 2009

«Prefácio» do livro Conta-me Histórias - Xutos & Pontapés, de Ana Cristina Ferrão.

domingo, 13 de janeiro de 2013

«Já passava das três da manhã quando invadiram o palco como um tornado...»

 

«No dia 13 de Janeiro de 1979 a sala dos Alunos de Apolo estava cheia e enfumarada. Na pista de dança os pares vestidos a rigor pareciam saídos de algum filme dos anos cinquenta, popas, rabos-de-cavalo, saias rodadas, blusões de cabedal, brilhantina a rodos, sapatos com sola de ceilão, botas de salto espanhol, cai-cais ousados, camisolas de gola alta... Em palco os Faíscas faziam questão de não deixar esvaziar a pista debitando com aprumo os velhos hits de Bill Halley, Eddie Cochran, Elvis Presley, Chuck Berry....
Era a festa comemorativa dos 25 anos do Rock’n’Roll!

Nós tocámos até às seis da manhã... tocámos os oldies todos. Aquilo era um festival de dança! Só parámos para os Xutos tocarem, o que não chegou a dez minutos – o set deles foi muito rápido! (Pedro Ayres de Magalhães)

A surpresa seria a apresentação de uma banda estreante, os Xutos & Pontapés Rock’n’roll Band, que fazia questão em frisar que Rock’n’roll Band era apelido. Já passava das três da manhã quando invadiram o palco como um tornado, debitaram a uma velocidade incrível quatro temas originais e abandonaram o palco sem que muitos dos presentes dessem por eles.»

Ana Cristina Ferrão, Conta-me Histórias - Xutos & Pontapés.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

terça-feira, 27 de novembro de 2012

«O Pássaro na Cabeça e mais versos para crianças», de Manuel António Pina § Ilda David’


O Pássaro na Cabeça 
e mais versos para crianças
Manuel António Pina § Ilda David’

Colecção: Assirinha / Tema, classificação: Infanto-Juvenil
Formato e acabamento: 23 x 23 cm, edição encadernada / 60 páginas

ISBN: 978-972-37-1658-0
PVP: 13 €

O Pássaro da Cabeça
foi publicado em 1.ª edição em 1983 (A Regra do Jogo, Lisboa), e nele se reúnem diversos poemas infantis do autor, incluindo alguns publicados em outros livros seus, como Gigões & Anantes e O Têpluquê e Outras Histórias. A presente edição é enriquecida com imagens da pintora Ilda David’.




A ANA QUER

A Ana quer
nunca ter saído
da barriga da mãe.
Cá fora está-se bem,
mas na barriga também
era divertido.

O coração ali à mão,
os pulmões ali ao pé,
ver como a mãe é
do lado que não se vê.

O que a Ana mais quer ser
quando for grande e crescer
é ser outra vez pequena:
não ter nada que fazer
senão ser pequena e crescer
e de vez em quando nascer
e voltar a desnascer.

BASTA IMAGINAR

Basta imaginar
um pássaro para o aprisionar,
e depois imaginar o ar para o libertar
e imaginar asas para ele voar
e imaginar uma canção para ele cantar.


Este livro integra as Metas Curriculares de Português para o Ensino Básico, 1.º, 2.º e 3.º Ciclos — Lista de obras e textos para leitura orientada, 5.º Ano.

«Guia de Aves», de Lars Svensson, Killian Mullarney e Dan Zetterström


GUIA DE AVES

Lars Svensson, Killian Mullarney e Dan Zetterström

Tradução e Revisão Científica: Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves

Colecção: Rosa dos Ventos 6 / Tema, classificação: Natureza
Formato e acabamento: 13,5 x 19,4 cm, edição brochada / 448 páginas

ISBN: 978-972-0-79214-3
PVP: 33 €

Este é, indiscutivelmente, o melhor guia de aves até hoje publicado sobre as aves da Europa, Norte de África e Médio Oriente, disponibilizando toda a informação necessária para identificar qualquer espécie em qualquer época do ano. O texto é detalhado e cobre aspectos do habitat, da área geográfica, da descrição e dos cantos de cada espécie. Inclui mapas de distribuição para as espécies de Portugal e da Europa, com informação rigorosa sobre as áreas de distribuição, de migração e de invernada.


Esta 2.ª edição inclui mais de 3500 ilustrações com todas as plumagens representativas de cada espécie, pintadas pelos melhores artistas de ilustração de aves do mundo. A tradução e a revisão estiveram a cargo de uma equipa técnica da SPEA — Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Mário Cesariny [ 9/VIII/1923 - 26/XI/2006 ]

                                                                                             ©Eduardo Tomé

Muito acima das nuvens seja o centro
das nossas misteriosas poéticas
o irresistível anseio de viajar
um só movimento trabalhado à mão
nos ermos mais altos
mais desaparecidos

Pena Capital